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"Já acabou, Jéssica?": após virar meme, jovem abandona a escola e fica com depressão

Lara da Silva teve a vida modificada desde a repercussão do vídeo em que aparece brigando com uma colega de escola.

02/09/2021 às 08h31
Por: Redação
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Uma briga na saída da escola, no município de Alto Jequitibá, em Minas Gerais, mudou a vida de Lara da Silva. O episódio, que aconteceu em 2015, repercutiu na internet após compartilharem um vídeo. A frase “Já acabou, Jéssica?”, dita por Lara, virou meme e causou danos à vida da adolescente.

Em entrevista à BBC, a garota, que agora está com 18 anos, afirma que o fato não é algo que ela goste de lembrar. "Ninguém nunca me perguntou como tudo isso me impactou”, disse a jovem à reportagem. Após a repercussão do vídeo, Lara se tornou alvo de bullying, abandonou a escola e precisou de tratamento psiquiátrico.

O vídeo mostra as duas garotas no chão, trocando agressões. Quando Lara consegue se levantar, após a outra garota correr, ela arruma o cabelo e faz a pergunta que virou meme a partir daquele dia.

"Quando eu me levantei, pensei: ela me jogou no chão, me bateu enquanto eu estava caída e agora vai correr? Foi quando eu disse a frase, que depois se tornou um inferno na minha vida", contou Lara à BBC.

Não houve mais agressões físicas entre as garotas após esse momento. O principal motivo da briga teria sido o ciúme que Jéssica tinha de um garoto com quem namorava na época. Em entrevista ao Estado de Minas, a garota afirmou que a briga também começou porque Lara a irritava e a xingava na escola.

Lara nega as acusações da colega de escola. Para ela, o único motivo das agressões foi o ciúme que Jéssica sentia. A mãe de Lara, Deusiane Figueredo, estranhou o fato de a filha ter se envolvido em uma briga. Ela conta que isso nunca tinha acontecido e que a menina tinha medo de brigas.

As mães das garotas foram chamadas para conversar com a diretoria da escola e com o conselho tutelar após a briga. Na reunião, elas assinaram um termo para sinalizar que estavam cientes da situação e se comprometeram a conversar com as filhas para evitar que o fato se repetisse.

Após a reunião, Deusiana notou que algo incomum estava acontecendo: muitas pessoas na cidade tinham assistido ao vídeo da briga. Ela afirma que foi um susto e que
nunca imaginou que aconteceria isso. “Começaram a me ligar para falar que ela estava na internet, e eu vi que o negócio estava ficando sério", diz Deusiana.

Voltar à escola após a repercussão do vídeo foi difícil para Lara. Ela contou à BBC que não conseguia estudar, porque era ofendida constantemente.

Ao perceber que a filha estava abalada, os pais a tiraram da escola. Lara também foi proibida de acessar a internet ou assistir à televisão, pois a mãe não queria que a menina acompanhasse comentários sobre a briga.

O vídeo foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais naquele período, alcançando milhões de visualizações. Sites de humor e perfis de Facebook, além de programas de televisão, ajudaram a propagar a cena.

Caso de Justiça

O caso virou assunto de Justiça. Lara e a outra garota que aparece na gravação movem processos contra emissoras de televisão e plataformas que compartilharam a cena. As duas jovens pedem a exclusão das imagens e cobram indenização por danos morais e materiais.

O Google, o Facebook, as emissoras de televisão SBT, Record e Band, além de dois rapazes que criaram um jogo baseado no vídeo da briga, são alvos das seis ações movidas por Lara.

Segundo argumentação da defesa da jovem, o Google e o Facebook foram fundamentais para a rápida propagação do vídeo, e essas plataformas não impediram os compartilhamentos da gravação envolvendo a exposição de adolescentes.

Os processos contra as emissoras de televisão têm argumentações semelhantes. Além de exibir imagens da briga, os canais utilizaram a expressão "Já acabou, Jéssica?", ajudando a propagar o caso, sem qualquer autorização dos responsáveis, segundo a defesa da garota.

Já a ação contra os dois criadores do jogo chamado "Já acabou, Jéssica?", lançado em novembro de 2015, menciona que eles usaram a briga entre as jovens para lucrar, também sem qualquer tipo de autorização dos responsáveis por Lara.

A defesa de Lara afirma, nas ações, que a exibição do vídeo ou qualquer tipo de menção feita por uma empresa à briga em 2015 fere o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Procuradas pela BBC, a Band, a Record, o Facebook e os rapazes que criaram o jogo não comentaram o caso. O Google não falou especificamente sobre a ação, porém, afirmou, em comunicado, que remove vídeos do YouTube, plataforma da qual é responsável, que violem suas diretrizes.

O SBT afirmou, em nota, que não exibiu a imagem de Lara. A emissora argumenta que usou apenas o jargão para anunciar a novela da tarde, pois na trama existia uma personagem com o mesmo nome (Jéssica).

Na semana passada, Lara conseguiu a primeira medida favorável na Justiça. A juíza Rafaella Amaral determinou, na última quinta-feira, 25, que a Record TV exclua vídeos, fotos e montagens publicados na internet que tenham algum tipo de relação com o meme, sob a pena de multa diária de R$ 500, que pode chegar até o limite de R$ 30 mil.

No caso de Jéssica, a justiça condenou a emissora Bandeirantes por danos morais e materiais. Ao todo, a Band Minas foi condenada a pagar R$ 70 mil reais referentes aos valores gastos pela família dela com acompanhamento psicológico nos últimos anos, além de pagar o tratamento psicológico da garota.

No processo, a defesa de Jéssica apontou que a emissora expôs a garota de forma vexatória, propagando o vídeo em programas de televisão, como o extinto Pânico na Band, e lucrou em cima da imagem da jovem, que não recebeu nada por isso.

Depressão 

Após virar meme, Lara passou a ficar em casa ou em residência de parentes. Nas vezes em que saía nas ruas, ela costumava ser reconhecida e ouvir comentários sobre o vídeo. O desânimo frequente da adolescente causou preocupação nos pais.

Além disso, a situação se tornou mais grave, pois a garota passou a se cortar. Lara conta que começou a se mutilar dias depois do vídeo viralizar nas redes. Ela afirmou que antes de se tornar meme, já havia pensado em fazer isso, em momentos de tristeza, mas não teve coragem.

Deusiana buscou tratamento para a filha. Na cidade em que morava, ela não encontrou um psicólogo que aceitasse acompanhar a jovem.

Para ter atendimento psicológico, Lara precisou enfrentar uma viagem de cerca de duas horas, três vezes por semana, em uma ambulância que levava os moradores de Alto Jequitibá para outro município. Nesse período, ela foi diagnosticada com problemas como depressão, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e transtorno de ansiedade.

Como aconteceu com Lara, casos de autolesão não-suicida, termo usado por especialistas sobre os cortes que as pessoas fazem em si, geralmente ocorrem quando o indivíduo vive uma situação de angústia. “Existe um conflito interno que essa pessoa não está conseguindo lidar. É uma das maneiras que ela encontra de tentar controlar o que sente. É uma tentativa de controlar a dor”, afirma a psicóloga Michele Queiroz.

De acordo com Michele, essa não é uma forma de controle propriamente dita, pois ela corre um grande risco de se machucar seriamente. Por isso, não é algo que se controle porque essa pessoa vai mais em busca desse alívio, e os cortes ficam cada vez maiores e mais profundos, na tentativa de sentir algo que ela pensa que consegue controlar.

A psicóloga afirma que os casos de automutilação ocorrem mais com adolescentes, e nessa fase existe uma busca maior pelas interações sociais, o que os deixa mais expostos. No caso de Lara, toda a exposição foi muito traumática, o que pode levar à uma regressão no seu comportamento.

Para Lara, houve uma exposição dupla, segundo Michele. Porque além da briga, houve a repercussão do vídeo. “Em casos como o da garota, os pais devem além de conversar, procurar acompanhamento profissional para ajudar esse adolescente a passar por esse momento e aprender a lidar com suas angústias”, ressalta a psicóloga.

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